Blog do Daniel Benevides

Arquivo : abril 2012

O pior Almodóvar
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Daniel Benevides

O problema de ver um filme muito depois da estreia, ou, como é o caso, depois que saiu dos cinemas (além, é claro, do fato de ver numa tela bem menor), é que as expectativas – boas ou ruins – vão se acumulando. E aí a decepção ou a boa surpresa podem ser maiores, e até bem maiores.

Aluguei A pele que habito com uma montanha de boas expectativas, já que acompanho os filmes do Almodóvar desde o começo da sua carreira – um dos meus favoritos é justamente o Maus hábitos, o anárquico longa de 1983 (caso raríssimo em que o título nacional é ainda melhor do que o original, Entre tinieblas).

As primeiras cenas até me animaram, com seus belos enquadramentos de bisturis e outros instrumentos cirúrgicos e a sensação de algo sinistro e ao mesmo tempo abstrato, como se a composição dos objetos transcendesse seu significado. As cores clínicas, meio azuladas, dão a impressão de falso conforto, prenúncio de algo inumano, de algum tipo de terror bizarro e estranhamente sereno.

Tudo isso se confirma, mas com um problema: ao contrário dos demais filmes de Almodóvar, não há uma gota de humor naqueles frascos e seringas. Maior qualidade do mestre espanhol, a mistura de ironia kitsch e melodrama não aparece em A pele que  habito (a não ser que se considere engraçada a canastrice de Antonio Banderas). Alguma graça chega a se insinuar no ritmo apressado das falas de Marisa Paredes, que parece estar sempre encarando o absurdo como se estivesse pechinchando legumes na feira – mas que na verdade está à beira de um ataque de nervos. Só que esbarra na beleza trágica da atriz Elena Anaya. Ela é tão intensa e sofrida, que nem mesmo a piada do nome vinga (Vera Cruz, a terra virgem descoberta).

A história batida do médico obcecado pela morte da mulher traz ecos de Frankenstein e Vertigo (Um corpo que cai), mas perde-se nas esquinas tortas do roteiro (nem por isso menos previsível).  Tudo é triste, incômodo, fácil. Pastiche solene (se é que isso é possível) do estilo que o próprio Almodóvar consagrou, A pele que habito parece daqueles filmes que se termina (de ver, de rodar) só por terminar – dá para imaginar o desânimo da equipe e dos atores durante as filmagens. Já os espectadores  se apegam aos longos 120 minutos, num voto teimoso de fidelidade ao diretor.


Nessa Páscoa, dê livros comestíveis
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Daniel Benevides

O índice de leitores está caindo, afirma uma nova pesquisa. Não li a pesquisa inteira (e espero não piorar o índice com isso), mas o resultado me deixou alarmado. Em conversa com o escritor Ronaldo Bressane, numa ruidosa festa de bebês (futuros não-leitores?), nos sentimos como animais em extinção. Se três livros por ano já credencia um cidadão ao título de leitor, certamente somos loucos, ao ritmo de um por semana, verdadeiros leitorossauros. De acordo com meu amigo, nem mesmo os jornalistas, espécie da qual participamos, com graus variados de convicção, têm o costume de abrir livros ou e-books e fechá-los depois de lido o ponto final. Tornou-se hábito exótico. Seremos estudados um dia? Imagino o fóssil de um leitor com um iPad na mão, lendo Os Imperfeccionistas, sátira implacável e genial aos …jornalistas! (Que nem por isso lhes despertou a atenção, ao que parece). Nada mal. Só não sei se a prática da leitura será vista como um costume salutar, que se perdeu, ou algo definitivamente estranho à nossa evolução, à essa altura já totalmente dirigida para práticas mais produtiva.

Certo é que o desespero já toma conta dos poucos defensores dessa espécie em extinção, os leitorossauros. Desespero em forma de bom humor, esperamos. Aliás, o que é o humor senão uma tradução palatável do desespero? Kafka que o diga. Mas quem é mesmo esse cara? Bom, então aí vai a dica para a Páscoa: livros de culinária comestíveis. Um exemplo perfeito da comunhão de forma e conteúdo. Pena que o bode Orelana já se tenha ido. Ele comeria toda a coleção, e só não encomendaria mais, porque talvez ainda preferisse – santa teimosia! – um clássico bojudo de Thomas Mann ou Guimarães Rosa. Bon appétit!

 


Leonard Cohen, o monge hedonista
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Daniel Benevides

Encontrei na internet esse texto, que eu tinha escrito para a revista Vida Simples, para a qual eu colaboro com duas páginas sobre música há anos. Achei legal resgatá-lo, não só por causa do disco novo, o ótimo Old Ideas, mas também por conta da primeira edição brasileira de A brincadeira favorita, que acaba de ser lançada. Por alguma razão ta faltando o primeiro parágrafo, em que eu descrevia sua casa simples, caiada de branco, em que ele vivia na paradisíaca Hydra, ilha grega, ponto de encontro de artistas e bom-vivants nos anos 60.


Leonard Cohen tinha 25 anos e já havia lançado o primeiro livro de poemas, o elogiado Let Us Compare Mytologies, escrito aos 22, em 1956. Uma bolsa de estudos o levou para Londres, mas, desanimado pelo clima úmido, acabou se refugiando em Hydra, na Grécia, lugar festejado por alguns artistas e escritores (como Henry Miller, que descreveu sua beleza “nua e selvagem”). Foi nessa paisagem de luz e prazer, cercado de amigos e belas mulheres, ao som de acordeão e bouzuki (um típico instrumento grego), que se formou o compositor de “músicas para cortar os pulsos”, como o descreveu, ligeiramente maldoso, um jornalista.

A busca

De fato, Cohen nunca escondeu a depressão, e sua busca espiritual através do judaísmo e mais tarde do budismo, além do uso de antidepressivos, deixa clara a angústia. Mas o fino senso de humor e o charme modesto e sedutor de certa forma amenizavam a melancolia estampada em seus textos. Conseguia, como poucos, aliar na vida e obra a espiritualidade severa, disciplinada, ao hedonismo sensual, romântico, uma tarefa aparentemente impossível, mas que determinou seu estilo único.

Em Hydra, Leonard ainda escreveu três livros de poesia e dois romances. O primeiro, The Favorite Game (1963), é um relato autobiográfico de seus tempos de estudante em Montreal, onde nasceu, de pais judeus – seu avô era rabino e tinha escrito um volumoso livro de interpretações do Talmude. O segundo, The Beautiful Losers (1966), recebeu elogios da crítica, que o rotulou de “o mais ousado jovem escritor do momento”, por causa do erotismo explícito e nada ortodoxo do livro, além da originalidade formal. O livro se tornou um best-seller no Canadá e nos EUA.

O passo seguinte foi se mudar para Nova York, onde se hospedou no mítico Chelsea Hotel (cenário de uma de suas canções mais famosas, Chelsea Hotel Nº 2, em que descreve um encontro com Janis Joplin, um de seus inúmeros casos na época) e se tornou um observador da ebulição que animava a Factory, de Andy Warhol. E compunha inspirado pela própria vida, a Bíblia e os poemas flamencos de Garcia Lorca, seu grande ídolo.

A consagração

O primeiro disco, Songs of Leonard Cohen (1968), era chamado de “blues europeu”, não chegou a emplacar nos EUA, mas foi bem na parada inglesa e no resto da Europa, fato que iria se repetir, mais ou menos regularmente, com os discos seguintes. Na França, dizia-se até que se uma francesa tivesse um só disco, certamente seria um disco seu.

À essa altura, ele já fazia grandes turnês, em que mergulhava no vinho, nas mulheres e nos entorpecentes (ou estimulantes, de acordo com o caso). Era um período de autodestruição, muita confusão mental e hedonismo. Cohen (que nunca se casou) vivia um relacionamento difícil com Suzanne Elrod, mãe de seus dois filhos, Adam e Lorca.

A virada

Foi então que ele conheceu Roshi, um mestre do budismo zen, que seria um amigo valioso pelo resto da vida e determinaria sua decisão, por volta de 1994, quando estava prestes a fazer 60 anos, de se tornar monge e viver por seis anos no centro budista de Mt. Baldy, em Los Angeles, trabalhando como motorista e cozinheiro. Lá ele foi rebatizado como Jikan, que significa “o silencioso”. A aparente contradição está em perfeita harmonia com sua personalidade, que nunca cedeu às expectativas dos outros e sempre manifestou um gosto pela ambiguidade, ou, em outras palavras, por colocar mais questões do que respondê-las, de forma gentilmente provocativa.

A influência de Roshi se estendeu para sua obra, que deixou um pouco de lado o humor quase sarcástico do álbum de 1974, New Skin for the Old Ceremony, que surpreendeu pela variação de temas, arranjos e ritmos, e os equívocos de Death of a Ladies Man (1977), que trazia Bob Dylan e Allen Ginsberg nos backings de uma canção e Suzanne na capa. Em Recent Songs (1979) e principalmente em Various Positions, gravado depois de um longo período de reavaliação, em 1984, Cohen desaparece para em seu lugar surgir um compositor ainda mais sutil e profundo, com canções de grande “sensualidade espiritual”, como a belíssima Hallelujah, o que levou Dylan a comentar que eram como orações.

O tempo como cozinheiro do mestre e amigo Roshi, em que acordava todos os dias às 3 da manhã para trabalhar e meditar, rendeu um livro de poemas e desenhos, The Book of Longing, e um novo disco depois de nove anos. Ten New Songs (2001), meio soul, meio gospel, foi gravado em sua garagem e escrito em parceria com uma de suas backing vocals, Sharon Robinson. O reflexivo Dear Heather, três anos depois, traz letras mais diretas e uma voz mais rouca e sussurrada. É o efeito dos cigarros e de 70 anos bem vividos. Sobre a idade, aliás, ele disse, com serena sabedoria: “À medida que você envelhece, passa a ter menos interesse pela nova versão da realidade”.

No entanto, uma versão desagradável da realidade bateu-lhe à porta, na forma de um rombo de milhões em sua conta. Sua antiga empresária se aproveitou de sua ausência nos anos de monastério e roubou tudo o que pôde. A solução, benéfica para os fãs, foi partir numa longa turnê. Um dos shows, em Londres, foi gravado e lançado recentemente no Brasil (Live in London). Um álbum duplo, com tudo o que de melhor ele compôs.


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