Blog do Daniel Benevides

Arquivo : junho 2012

Bagunça sagrada
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Daniel Benevides

Não seria mau criar uma religião para arrumar os livros que teimam em se acumular nas paredes, em pilhas verticais, horizontais e diagonais, e despencam na cabeça com frequência bem maior que os meteoros. Mas teria de ser uma religião politeísta e onitolerante. Assim, os autores-deuses teriam seu lugar garantido na frente da estante e jamais seriam jogados fora.

Já os escritores terrenos, não sendo “de referência”, poderiam passar para as fileiras do fundo, no purgatório de madeira, ou, caso já bem lidos, ser gentilmente doados, não por desprezo teológico, mas porque o espaço e o tempo, como sabemos, são relativos (ou, diante das novas experiências, pós-relativos). O milagre da arrumação seria uma realidade empírica e até cientificamente comprovada.

Bastaria ser um devoto fanático, para eliminar o apego às coisas pedestres e tornar compulsório o estudo das escrituras sagradas. Estas, é claro, variariam de acordo com o fiel seguidor e com o estágio de vida de cada um.

No meu caso, as escrituras certamente estariam longe de ser sagradas no sentido pontifícico. Após um escrutínio íntimo e saudavelmente leviano, vi que meus deuses, ao menos nessa semana, seriam Beckett, Bolaño, Ballard, Tolstoi, Szymborska, Drummond, Kundera (como ensaísta), os Roth (Philip e Joseph), Vittorini, Duras, Carrère e Le Clézio.

Mas, como eu disse, varia. Nada impede que, daqui a um mês ou dois, Dalton Trevisan, Pynchon, Musil e Coetzee subam ao Olimpo das prateleiras que ficam mais ao alcance da mão. Aliás, Coetzee, pensando bem, já está. Assim como os caros Tony Judt, Bertrand Russell e Fausto Wolff.

O importante mesmo é identificar os mortais – especialmente os já lidos, e dispensá-los com leveza na alma, sem culpa nem arrependimento.

Sempre teremos a opção digital, no caso de querermos ressuscitá-los, por alguma razão afetiva (dedicatória, presente, guilty pleasure, amizade com o signatário da obra) ou erro de não-canonização. Lázaros literários, teriam sua segunda chance na ponta dos dedos. A justiça divina estaria resguardada.


Algumas conexões entre rock e literatura
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Daniel Benevides

Nick Cave e seu divertido e selvagem A morte de Bunny Munro

Há quem considere o rock “burro”, inculto, tosco. De fato, muitas bandas são assim – dentre elas, algumas das melhores (pense em Ramones, Black Sabbath ou AC/DC). Muito do rock, afinal, rola à base de testosterona juvenil, explosão adolescente, sexo pelo sexo e drogas pelas drogas. Até aí, nada de novo e nada de mal.

Mas há também bandas e cantores que se filiam a uma vertente mais “cabeça”, “sensível”, “literária”. As aspas são necessárias, pois há um oceano entre o poeta e escritor Leonard Cohen, autor de dois romances e vários livros de poesia,  e, por exemplo, o Steppenwolf, boa banda de hard rock, cuja conexão com a literatura está apenas no nome, tirado de O Lobo da Estepe, clássico hippie do Herman Hesse.

No fim das contas, à parte Cohen, Dylan, Lou Reed, Patti Smith, Serge Gainsbourg e Tom Waits (pra citar só alguns dos autênticos “roqueiros literatos”) é curioso ver que o escritor alemão/suiço de Sidarta e O jogo das contas de vidro não é o único a batizar bandas de rock.

Nosso caro Bruno Schulz, por exemplo, um dos mais interessantes escritores do século XX, autor cultuado de Lojas de Canela e Sanatório, inspirou uma banda polonesa. Que, por sinal, é bem razoável, na praia do rock dito alternativo. Dá uma olhada:

Outros exemplos? Dos clássicos há The Doors, nome tirado do livro As portas da percepção, de Aldous Huxley (que por sua vez tirou o título do poeta William Blake);  Steely Dan e Sof Machine escolheram seus nomes a partir da obra de William Burroughs (não à toa, um dos heróis do underground musical), e o The Fall (uma das minhas favoritas) inspirou-se em A Queda, de Albert Camus.

Dos menos conhecidos, há a Vulgue Tolstoi, banda brasileira, a House of Love (nome de um livro da Anais Nin), o outrora famoso Bronski Beat (Bronski é um personagem de O Tambor, livro do Nobel Gunther Grass) e a Birthday Party (outra das favoritas, nome de uma peça do Harold Pinter), primeira banda do Nick Cave (também um cara autenticamente “literário”, autor de dois romances).

Tem até duas bandas chamadas The Bell Jar, mesmo nome do livro em prosa da poeta Sylvia Plath: uma pseudo-Echo and the Bunnyman e a outra tipo death metal.

Claro que o genial Faulkner não ficaria de fora. O ótimo grupo Pylon, que foi uma referência para o R.E.M. do começo, foi batizado com o título de um livro do mestre William F, apreciador de belas pernas, uísque e belas letras. O mesmo fez a banda As I lay Dying, que nunca ouvira falar. Dando uma youtubada, deu para entender o porquê:  é trash metal genérico (que me perdoem os fãs, que não parecem poucos).

Para finalizar, tem a minha adorada The Triffids, injustamente esquecida banda australiana, cujo batismo surgiu da leitura do romance pós-apocalíptico The Day of the Triffids, uma espécie de Guerra dos mundos escrita pelo inglês John Wyndam. David MacComb, o grande vocalista e letrista morreu muito jovem, em 1999.

Bom, mais uma, vai – e outra australiana, também das preferidas deste escriba: The Go-Betweens, do chapa Robert Foster. O nome vem do clássico de L.P.Hartley, que já deve ter virado filme, série da BBC etc.


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