Blog do Daniel Benevides

Arquivo : maio 2013

Sadismo de pai pra filho
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Daniel Benevides

Laurence Olivier e Dustin Hoffman em The Marathon Man

De louco todo dentista tem um pouco. Meu amigo Luiz Thunderbird é dentista, o que reforça a impressão. (Se alguém precisar de mais exemplos, lembro que meu caro Formiga, repórter de esportes radicais na ESPN, também escarafuncha molares nas horas vagas)

Talvez por isso eu ache mais difícil me ajustar a um dentista do que comprar sapatos. Conheci o Dr. Armand por indicação de minha mulher; tendo a confiar nas indicações dela por conta de seu temperamento rigoroso, crítico e sua capacidade de discutir de igual pra igual com qualquer profissional, seja ele neurocirurgião ou químico.

Fato é que simpatizei com o sujeito de cara. Sua família vem da Armênia, o que lhe dá um toque de exotismo. (Até hoje não chequei se a Armênia de fato existe, como país reconhecido pela ONU – desconfio que não, o que só aumenta minha simpatia). E ainda por cima ele é a cara do Neil Diamond. Se começasse a cantar com gestos efusivos eu não estranharia.

Ocorre que Dr. Armand da Armênia tem, como todo dentista, um pai dentista de quem herdou o consultório. Mas no caso dele, herdou o consultório com o pai dentro. Trata-se de um velhinho vigoroso, de orelhas enormes, tufos fartos de pelos no nariz, que denuncia sua presença por sinistros ruídos que irrompem detrás de uma portinha no fundo. O que estará maquinando?

Nunca o tinha visto direito. Ele entrava e saía misteriosamente, como um atarefado funcionário do castelo de Kafka, fazendo a portinha, pivotante, balançar pra lá e pra cá. Até que o filho, para agradar ao pai ou por insegurança, decide convocá-lo para ajudar no meu caso. Súbito estavam os dois narizes enormes apontados pra mim. Encimados por olhares de especialistas, as duas gerações de apêndices nasais fugidos de um conto de Gógol, discutiam os procedimentos de tortura, como se eu fosse uma árvore à qual precisasse cortar um galho e não um ser humano aterrorizado.

Amputação
Tentei pensar nos soldados feridos da Guerra Civil Americana, que tinham suas pernas amputadas sem anestesia, à base de uísque e porrada na cabeça. Não adiantou. Por mais simpáticos que fossem os odontológicos armênios, me senti como uma cobaia na ilha do Dr. Moreau ou como se estivesse numa mesa de dissecação dentro de um OVNI. Acostumados à intimidade caseira, não tinham pudores em dizer que a broca tava esquisita ou que não tinham certeza se daria pra consertar o dente etc. Pra piorar, começaram a discutir. Não é assim que se faz, deixa que eu faço, dizia um. Tá errado, bradava o outro, ao que acrescentava: “você atingiu a gengiva sem necessidade. Eu te disse pra usar o outro alicate!”. Armand, com a respiração curta e gestos bruscos, ansiava por mostrar ao pai que era capaz; este, por sua vez, retrucava com o enfado impaciente de quem acumulou décadas de experiência.

Eu olhava pros dois e começava a ficar confuso, como se fossem a mesma pessoa convivendo em alguma curva estranha de tempo. Imaginava seus antepassados, pastoreando cabras e colhendo olivas. Ao mesmo tempo, sentia a respiração como se eu tivesse diante do monolito de 2001, uma odisséia no espaço. Em algum momento ouvi o mais novo dizer: “cruze os dedos pra que dê certo”. Tive então certeza de que não daria. Dito e feito: dissipada a alucinação, vejo o pai sentado, desolado com o resultado, dizendo que teriam de repetir tudo.

Pensam que saí correndo? Se o sadismo é ilimitado é porque há um masoquismo que o alimente. Pedi uísque. Riram. “Pode bochechar com aquele copinho, se quiser”. Apertei o apoio da poltrona com força e, sentindo-me um heroi da resistência, disse: “Recuso a venda, podem atirar”. E eles atiraram. Ao fundo, Paolo Conte cantava “Via con me”. Foi a última coisa de que me lembro.


Livros que matam
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Daniel Benevides

Foi em Paris, em 1888. Ao buscar um livro na estante mais alta de sua biblioteca, o renomado pianista Charles-Valentin Alkan deu seu último suspiro, soterrado pelo peso de centenas de grossos volumes. Pode-se dizer em seu caso que a busca pela sabedoria saiu-lhe muito cara.

Talvez inspirado nessa lenda urbana, o catalão Enrique Vila-Matas imaginou um livro que provocasse a morte de quem o lesse. La asesina ilustrada, compreensivelmente, afugentou muitos leitores, quando lançado em 1977. Há quem diga que o sortilégio literário funcionou pelo menos duas vezes, mas os relatos são inconclusos.

Claro, há Os sofrimentos do jovem Werter, romance mais bem sucedido se considerarmos a premissa de Vila-Matas. Rejeitado pela mulher amada, o personagem inventado por Goethe se mata  . Tal gesto porém, saiu das páginas e atingiu centenas de jovens reais, os quais, profundamente movidos pela intensidade de sentimentos descrita, resolveram também por fim a suas vidas. Se a moda foi passageira, deixou marcas eternas.

Menos líricos, mas não menos intensos, muitos sábios chineses preferiram a morte a desfazer-se de seus livros, então proibidos pelo imperador Qin Shi Huang (o mesmo que construíra a Grande Muralha, cerca de duzentos anos antes de Cristo). Para ele, só prestavam livros que falassem de medicina, agricultura e previsão do tempo (Paulo Coelho e Zibia Gasparetto não teriam vez).

Distração diante da guilhotina

Marat também estava lendo quando foi surpreendido por sua assassina

Algumas dessas histórias estão no livro Fantasmas na Biblioteca, de Jacques Bonnet. Um dos maiores colecionadores do mundo, ele tem uma biblioteca de cerca de 40 mil volumes. Bem humorado, conta na sua autobiografia biblioliterária como construiu esse “paraíso na Terra” (na descrição de Borges) desde os tempos em que tinha de acondicionar suas preciosas raridades em estantes no banheiro e na cozinha, por falta de espaço.

As anedotas lembradas por Bonnet são muitas, entre elas a ocorrida em plena era do Terror, na Paris de Robespierre. No caminho para a guilhotina, levado pelos guardas, um aristocrata seguiu carregando um livro, o qual lia compenetrado, alheio aos gritos da multidão. Antes de ter a cabeça cortada, pediu ao carrasco que o deixasse terminar a página. E assim foi. Diante do interesse que desafiava a própria morte, é de se perguntar, até com certa avidez: que livro seria esse?

Mas a minha favorita é a do historiador e escritor Valincour (sucessor de Racine na Academia Francesa), um primor de sabedoria e estoicismo elegante. Após ver-se destituído de todos seus livros, queimados num incêndio que atingiu sua gigantesca biblioteca, disse, simplesmente: “Meus livros não teriam valido nada se eu não tivesse aprendido a viver sem eles.”


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