Blog do Daniel Benevides

Arquivo : setembro 2011

Nirvana, REM e o Rio do suposto Rock
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Daniel Benevides

Não vi nada do Rock in Rio, o que talvez não tenha feito diferença. Pro festival com certeza não fez. Se fez pra mim, é algo que tenho que debater com meus botões. Como estou de zíper e camiseta, fica pra amanhã.

O pouco que sei foi por tabela. Li, por exemplo, o ótimo texto do Maurício Stycer. E vi a Christiane Torloni “chapadona” dando entrevista pra Globo.

O vídeo ilustra o texto à perfeição. Stycer pergunta: “cadê a rebeldia do rock”? Tá na Torloni? Tá no discurso do Dinho Ouro Preto? No “merchan” do A. Kiedis? Tá no rock macarrônico do Mike Patton?

Mais fácil encontrar rebeldia na Rihana. O que me leva ao Nirvana e ao REM.

Duas bandas irmãs, duas bandas incríveis, mas que de certa forma, e involuntariamente, como lembra o filósofo José Rodrigo Rodriguez, talvez sejam responsáveis pela pasmaceira reinante.

Isso porque foram eles (e os Pixies) que puseram melodia no punk e levaram o mundo do rock alternativo ao topo das paradas. Sem querer, deixaram que a Billboard, representante mais visível da indústria, engolisse a rebeldia, tal como Saturno a seus filhos.

Kurt Cobain, apesar de buscar conscientemente o sucesso, nunca se deu bem com essa idéia depois que ela virou realidade. Seu espírito autodestrutivo se revelou em shows como aquele do Hollywood Rock em São Paulo, em meados dos anos 90.

Eu trabalhava na MTV nessa época e vi ele de perto. Um cara bacana, franzino, de ombros curvados e uma expressão inofensiva, mas com um ligeiro brilho maníaco no olhar.

Seus parceiros, Dave Grohl e Krist Novoselic, com quem conversamos (o grande reverendo Fabio Massari e eu, atrás da câmera) pareciam viver num suspense contínuo, sem saber quando o coração de “Kurtz” Cobain mergulharia nas trevas.

Foi um show inesquecível. Não no sentido positivo, pelo som, mas pela visão de um sujeito de grande talento perder o controle (ou controlar sua perda) e chutar, socar, espatifar o balde. A gente não sabia, mas talvez desconfiasse: era um dos muitos sintomas de um suicídio anunciado.

Nevermind, o disco-razão de tudo isso, fez 20 anos. Hoje toca em elevador de shopping. Precisa dizer alguma coisa?

Um dos interlocutores de Cobain era Michael Stipe, vocalista e letrista do REM, a quem ele admirava. O REM foi por muito tempo afinal, bem antes de Losing my Religion, uma autêntica banda de garagem com cérebro, um “rótulo” que não ficaria mal no próprio Nirvana.

Não lembro se conheciam-se bem, lembro que se falavam muito ao telefone. Depois veio o tiro no céu da boca, o bilhete mítico, o novo belo cadáver do pop (hoje já substituído por Amy W.)

 

 

E agora o REM acabou, deixando muitos órfãos. Não me incluo entre eles, ainda que concorde com a amiga Nina Lemos: o quarteto de Athens fez a melhor trilha (ou uma delas) da nossa geração.

Na verdade achei bom que o REM tenha acabado. O mundo está mais careta. É preciso encontrar novas formas de rebeldia. E o REM conseguiu atravessar esses tempos sem um único disco ruim no currículo (e com pelo menos duas obras-primas).  É muito mais do que fez a maioria das bandas.

Os três (já que em 97 um aneurisma levou o batera Bill Berry de volta pra roça) devem ter cansado: do rock, das longas turnês na estrada, da convivência forçada entre eles,  das obrigações contratuais, de gritar para os surdos.

Tô escrevendo em círculos, mas a palavra que liga tudo isso acho que é autenticidade. Algo não muito fácil definir, mas que tanto o REM como o Nirvana  tinham de sobra e faziam questão de não perder.

Pra isso, a saída de um foi o suicídio. A de outro foi a permanência digna no palco, sem abrir mão de seus princípios.

O REM já tocou no Rock in Rio, na terceira edição, assim como Grohl e seu Foo Fighters. Foi um grande show, como quase todos do REM que se tem notícia. Não sei se Christiane Torloni estava lá.

Eu não vi.


PARA QUÊ SERVEM OS PRÊMIOS?
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Daniel Benevides

Passou uma semana ou quase isso e eu não consigo tirar da cabeça o prêmio dado a Keith Richards de melhor escritor do ano pela revista GQ (a inglesa).

Como fã dele achei divertido. Mas aquilo me incomodou, por mais que o prêmio em si não tenha muita importância.

Talvez porque seja mais um exemplo de como o cinismo e o oportunismo florescem com tanta facilidade no meio cultural (e em todos os outros meios).

Qual deveria ser, afinal, o papel de um prêmio? Em primeiro lugar, incentivar novos talentos, que precisam desse tipo de exposição para serem conhecidos. Em segundo, reconhecer a excelência de um trabalho, seja de um veterano ou de um novato. Qualquer outro motivo me parece pouco honesto.

“Vida”, a autobiografia de Keith, é legal, um adjetivo que significa igualmente legítima e bacana. Mas tá longe de ser literatura, boa ou ruim. A ironia maior é que ele talvez não tenha nem escrito uma linha, já que há um parceiro jornalista no projeto, que teria feita toda a exaustiva pesquisa sobre sua vida.

Keith deve olhar o prêmio na sua estante e rir sozinho. Ainda mais ele, que se diz leitor e já citou James Joyce em entrevistas.

É evidente que a revista quis premiar a si mesma, chamando a atenção do público, buscando a visibilidade pelo choque fácil. Basta ver que deram o prêmio de melhor músico ao renascentista Hugh Laurie, o House (que por acaso também escreve livros). E ele é bom, de fato, mas o melhor? Dificilmente.

A gente vive soterrado pela avalanche midiática diária, que às vezes nem se dá conta de como os valores são frequentemente trocados pelos interesses.

Até o Nobel e em escala menor o Jabuti, vira e mexe surgem com escolhas duvidosas – no caso do Nobel nunca por razões cínicas ou financeiras, mas políticas (ou “humanísticas”), o que também não serve para o debate cultural honesto. O fato de Borges ter apoiado a sangrenta ditadura argentina – fato em si lastimável – não faz com ele deixe de ser o escritor latino-americano mais influente do século 20 e portanto merecedor do Nobel, o qual nunca recebeu (assim como Joyce, Kafka, Proust…a lista é grande).

Eu lembro que o (mais que justamente) cultuado Roberto Bolaño falava de como os prêmios eram importantes pra sua carreira. Por um tempo, eram os prêmios que o sustentavam. Ele chegava a se inscrever, usando pseudônimos, em dois ou três concursos de literatura ao mesmo tempo. E ganhava muitos.

Se a GQ inglesa queria fazer da premiação uma vitrine para si mesma, poderia ao menos criar categorias mais condizentes com seu intuito, originais, engraçadas, divertidas. No lugar deles, eu daria, por exemplo, o prêmio de fato banal mais importante do ano para as fotos da linda Scarlett Johansson. Por três dias, o corpo nu da musa roubou a cena de todas as manchetes do mundo e ainda movimentou o FBI. Afinal, a gente não quer só comida, a gente quer a bunda e os peitos da Scarlett.

Longa vida a a Scarlett e Keith, mas também longa vida aos prêmios autênticos, especialmente os literários – quem já escreveu um livro, sabe como é difícil, solitária e mal remunerada a atividade de Thomas Mann e Patativa do Assaré.


Como a vanguarda pode ser reacionária
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Daniel Benevides

Um exemplo é “A árvore da Vida”. Dirigido pelo celebrado artesão de “Além da Linha Vermelha”, Terence Malick, o filme tem roupagem modernosa, narrativa não linear e proposta não comercial, apesar de Brad Pitt e Sean Penn.

Mas seu espírito é antigo como o medo.

Aliás, como muitas obras surgidas depois do sorriso maligno de Bin Laden, que virou uma gargalhada explosiva há dez anos, o longa é mais uma resposta ao medo primitivo do vazio, da não-existência, é um retorno ao discurso escatológico do apocalipse, mas pronunciado de forma pretensiosa, restrito aos valores arcaicos de sobrevivência.

É como se todas as histórias tivessem caído junto com as torres gêmeas e só restasse o essencial, o impulso primitivo de viver, de procriar e de matar, se preciso. Nesse quadro, intensificado pela crise econômica de 2008, a natureza ganha força, assim como o núcleo familiar e a religião.

Terra, família e salvação. Soa familiar?

O filme começa citando Jó, aquele sujeito que sofria o diabo em nome de deus. E segue com vozes sussurrantes dos personagens em off, como se fossem espíritos do além.

Visualmente, repete os planos poéticos de Atrás da Linha Vermelha, mas num contexto pseudocientífico-religioso.

É de cair o queixo. De incredulidade. O tempo todo nos perguntamos: é isso mesmo que ele quer dizer? Morre um jovem, filho de uma família de Waco, Texas (não sei se é só coincidência, mas é a mesma cidade onde foram massacrados os seguidores de uma seita, em 1993).

A mãe, desconsolada, lança seus gritos para o céu. Uma vizinha ou parente diz a ela: “assim é a vida”.

E então, para surpresa de quem não pegou no sono, o filme vira, como disse um grande amigo, um documentário do tipo National Geographic, em tom mais sentimental.

Malick, pretenso sucessor de Michelangelo, faz do filme sua Capela Sistina: resolve mostrar o que é, fisica e metafisicamente, “a vida”.

Surgem imagens de nebulosas, ebulições solares, crateras sombrias, os luminosos aneis de saturno e finalmente a água batismal, onde tudo começa, em toda sua magnificência convulsiva, em toda sua profundidade insondável.

Mas não fica nisso. Malick vai além. Sugere células se dividindo, mircoorganismos se formando, até que vemos um dinossauro exausto à beira do mar.

Espera aí. Um, dinossauro? A cena é tão bizarra e involuntariamente cômica que poderia estar no meio de “O Sentido da Vida”, do Monthy Python. Seria perfeito.

Aí voltamos à família. O pai (Brad Pitt) devota um amor rigoroso aos filhos. A mãe é um espírito livre, imaginativo. Todos a amam. É a mãe terra. O filho mais velho tem traços de Caim, mas também de Édipo. Seu ódio pelo irmão bondoso e belo como um anjo toma proporções no limite da violência, sexuais, confusas.. Chega a puberdade e ele conspurca uma camisola roubada da vizinha, que tenta esconder como se fora um corpo assassinado.

É melhor nem continuar com as análises. Malick quis dizer tudo e acabou dizendo muito pouco. Ao fim, passado e presente fazem o looping da relatividade e todos, vivos e mortos, se encontram numa praia e se deixam encantar e ajoelhar (e dar as mãos?) diante da mesma água primeva que nos trouxe o dinossauro, o amor, o ódio, e o progresso desenfreado – que assume o rosto de Sean Penn, nosso Caim/Édipo, tornado megaempresário.

Não é mais do pó vieste, ao pó retornarás, mas sim da água. A água darwinista, a água batista, a água do sêmen do pecado, água freudiana. A água que afunda o filme, com todo o peso de suas pretensões.

É muito pra cabeça.

Mas é, otimismos à parte, sinal claro de que vivemos uma época de extremos.


O Mundo Girando
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Daniel Benevides

Ligo a TV e só se fala nos dez anos do 11 de setembro. Pego os jornais e lá estão as imagens do avião em ângulo estranho, como um tubarão visto de baixo, prestes a atacar, e da fumaça resultante, o fumo de um cachimbo da guerra. Lá estão as imagens dos prédios caindo, os gigantes que moravam no alto do pé de feijão. Lá está a imagem do homem caindo do céu, com um joelho dobrado, o que lhe confere uma elegância absurda, uma estranha dignidade.

O impacto é grande; é grande a comoção.

Mas há algo de terrível em toda essa comoção. Ela representa uma matemática diabólica, simboliza um aspecto cruel do mundo em que vivemos, mais ou menos comodamente.

É a matemática que diz, na sombra das manchetes, que um morto em solo estadunidense vale muito mais, centenas de vezes mais, milhares de vez mais, do que um morto em outros países, especialmente aqueles mais distantes, que são e foram em tantas ocasiões, vítimas dos mesmos Estados Unidos que hoje se colocam como a suprema vítima do terror globalizado.

Tudo o que gira em torno do 11 de setembro – a não ser a genuína dor pelo desaparecimento de entes queridos – parece mais uma grande ficção do que um fato histórico. E cada vez mais, à medida em que o tempo vai apagando as pistas do que realmente aconteceu e não é contado.

Ficção por ficção, é melhor ficar com alguns livros inspirados pelos ataques, como o excelente “Deixe o Grande Mundo Girar”, do irlandês radicado em Nova York, Colum McCann, sobre o qual escrevi aqui mesmo no UOL há um tempo.

 

 


A paixão de Gay Talese pela mãe de Borges
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Daniel Benevides

Borges e sua mãe, Leonor

Gay Talese tinha 30 anos. Era repórter do The New York Times quando recebeu a incumbência de entrevistar Jorge Luis Borges. Corria o ano de 1962. Borges já tinha publicado alguns de seus melhores livros, “Ficções” e “O Aleph”. Talese ainda buscava o estilo com o qual ficaria conhecido como um dos grandes jornalistas de história, autor de “A Mulher do Próximo” e “Fama e Anonimato”.

Como ele mesmo revela, num texto breve escrito recentemente, por ocasião dos 25 anos da morte de Borges, estava muito nervoso. Tão nervoso, na verdade, que ao chegar no lendário Algonquin, hotel que costuma receber a nata dos intelectuais que giravam em torno da The New Yorker (onde Talese escreveria, mais tarde), como Dorothy Parker e o editor Harold Ross, em libações homéricas, e dar de cara com o já cego mestre da literatura, teve olhos apenas para a mãe deste: “que, apesar de ter 85 anos, não aparentava mais de 60 e que, poderia acrescentar, era de uma beleza assombrosa para qualquer idade. Pensei que não podia ter sido mais bela nem quando tinha 25 anos”.

E o elogio continua, ocupando um espaço considerável numa matéria curta. Talese tinha apenas meia hora para conversar com Borges. Curiosamente, não falaram de sua obra. O texto, ao final, revela talvez a ignorância sobre os labirintos e espelhos do mestre argentino nos EUA, que viviam os anos exultantes da era Kennedy e ainda viam a América Latina como o quintal dos fundos.

A entrevista foi publicada no Babélia, suplemento literário do jornal espanhol El País.

Hoje também saiu aqui no UOL mesmo, uma resenha minha de “Borges Oral/Sete Noites”. Quem se interessou pelos escritos não-ficionais do viejo Brujo pode procurar também os livros “Outras Inquisições”, “Prólogos, com um Prólogo de Prólogos” e “Discurso”.

 


Agatha Christie era surfista
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Daniel Benevides

Quem diria: a respeitável mãe de Hercule Poirot, não apenas não era virgem como foi uma das primeiras surfistas da Inglaterra! Autora de centenas de livros que com certeza foram devorados por muita gente na praia, tia Agatha gostava de um pranchão, e de vez em quando fazia manobras sobre as ondas com seus simpáticos joelhos rechonchudos.

A foto ao lado foi tirada em 1922, na praia de Waikiki, pelo suposto pai de Poirot e Miss Maples.

 

TOUCHDOWN DE KEROUAC E TIRO AO ALVO COM BEAUVOIR

Jack Kerouac, por sua vez, quando não estava com o pé na estrada, curtia um rala-rala no campo de futebol americano. O problema, parece, é que nunca seguia o esquema tático. Seu estilo de jogo era automático: trombava quem fosse, do jeito que viesse, em qualquer direção. Sua mãe não pedia um jogo e, para seu constrangimento, dava tchauzinho da arquibancada. Fato imporante para os anais da literatura: foi no gramado, dizem, que conheceu o amigo de farras Neal Cassady.

E Simone de Beauvoir, que nunca matou um faisão na vida, resolveu aprender a pegar no cano fumegante com o companheiro atlético Jean-Paul Sartre, cuja visão e pontaria tornaram-se lendárias nos campos de França.

Para ver essas e outras imagens de herois da literatura, como Hemingway e Virginia Woolf, atuando em seus esportes favoritos, é só clicar aqui, no blog da Flavorpill.


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