Blog do Daniel Benevides

O pior Almodóvar

O problema de ver um filme muito depois da estreia, ou, como é o caso, depois que saiu dos cinemas (além, é claro, do fato de ver numa tela bem menor), é que as expectativas – boas ou ruins – vão se acumulando. E aí a decepção ou a boa surpresa podem ser maiores, e até bem maiores.

Aluguei A pele que habito com uma montanha de boas expectativas, já que acompanho os filmes do Almodóvar desde o começo da sua carreira – um dos meus favoritos é justamente o Maus hábitos, o anárquico longa de 1983 (caso raríssimo em que o título nacional é ainda melhor do que o original, Entre tinieblas).

As primeiras cenas até me animaram, com seus belos enquadramentos de bisturis e outros instrumentos cirúrgicos e a sensação de algo sinistro e ao mesmo tempo abstrato, como se a composição dos objetos transcendesse seu significado. As cores clínicas, meio azuladas, dão a impressão de falso conforto, prenúncio de algo inumano, de algum tipo de terror bizarro e estranhamente sereno.

Tudo isso se confirma, mas com um problema: ao contrário dos demais filmes de Almodóvar, não há uma gota de humor naqueles frascos e seringas. Maior qualidade do mestre espanhol, a mistura de ironia kitsch e melodrama não aparece em A pele que  habito (a não ser que se considere engraçada a canastrice de Antonio Banderas). Alguma graça chega a se insinuar no ritmo apressado das falas de Marisa Paredes, que parece estar sempre encarando o absurdo como se estivesse pechinchando legumes na feira – mas que na verdade está à beira de um ataque de nervos. Só que esbarra na beleza trágica da atriz Elena Anaya. Ela é tão intensa e sofrida, que nem mesmo a piada do nome vinga (Vera Cruz, a terra virgem descoberta).

A história batida do médico obcecado pela morte da mulher traz ecos de Frankenstein e Vertigo (Um corpo que cai), mas perde-se nas esquinas tortas do roteiro (nem por isso menos previsível).  Tudo é triste, incômodo, fácil. Pastiche solene (se é que isso é possível) do estilo que o próprio Almodóvar consagrou, A pele que habito parece daqueles filmes que se termina (de ver, de rodar) só por terminar – dá para imaginar o desânimo da equipe e dos atores durante as filmagens. Já os espectadores  se apegam aos longos 120 minutos, num voto teimoso de fidelidade ao diretor.

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Nessa Páscoa, dê livros comestíveis

O índice de leitores está caindo, afirma uma nova pesquisa. Não li a pesquisa inteira (e espero não piorar o índice com isso), mas o resultado me deixou alarmado. Em conversa com o escritor Ronaldo Bressane, numa ruidosa festa de bebês (futuros não-leitores?), nos sentimos como animais em extinção. Se três livros por ano já credencia um cidadão ao título de leitor, certamente somos loucos, ao ritmo de um por semana, verdadeiros leitorossauros. De acordo com meu amigo, nem mesmo os jornalistas, espécie da qual participamos, com graus variados de convicção, têm o costume de abrir livros ou e-books e fechá-los depois de lido o ponto final. Tornou-se hábito exótico. Seremos estudados um dia? Imagino o fóssil de um leitor com um iPad na mão, lendo Os Imperfeccionistas, sátira implacável e genial aos …jornalistas! (Que nem por isso lhes despertou a atenção, ao que parece). Nada mal. Só não sei se a prática da leitura será vista como um costume salutar, que se perdeu, ou algo definitivamente estranho à nossa evolução, à essa altura já totalmente dirigida para práticas mais produtiva.

Certo é que o desespero já toma conta dos poucos defensores dessa espécie em extinção, os leitorossauros. Desespero em forma de bom humor, esperamos. Aliás, o que é o humor senão uma tradução palatável do desespero? Kafka que o diga. Mas quem é mesmo esse cara? Bom, então aí vai a dica para a Páscoa: livros de culinária comestíveis. Um exemplo perfeito da comunhão de forma e conteúdo. Pena que o bode Orelana já se tenha ido. Ele comeria toda a coleção, e só não encomendaria mais, porque talvez ainda preferisse – santa teimosia! – um clássico bojudo de Thomas Mann ou Guimarães Rosa. Bon appétit!

 

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Leonard Cohen, o monge hedonista

Encontrei na internet esse texto, que eu tinha escrito para a revista Vida Simples, para a qual eu colaboro com duas páginas sobre música há anos. Achei legal resgatá-lo, não só por causa do disco novo, o ótimo Old Ideas, mas também por conta da primeira edição brasileira de A brincadeira favorita, que acaba de ser lançada. Por alguma razão ta faltando o primeiro parágrafo, em que eu descrevia sua casa simples, caiada de branco, em que ele vivia na paradisíaca Hydra, ilha grega, ponto de encontro de artistas e bom-vivants nos anos 60.


Leonard Cohen tinha 25 anos e já havia lançado o primeiro livro de poemas, o elogiado Let Us Compare Mytologies, escrito aos 22, em 1956. Uma bolsa de estudos o levou para Londres, mas, desanimado pelo clima úmido, acabou se refugiando em Hydra, na Grécia, lugar festejado por alguns artistas e escritores (como Henry Miller, que descreveu sua beleza “nua e selvagem”). Foi nessa paisagem de luz e prazer, cercado de amigos e belas mulheres, ao som de acordeão e bouzuki (um típico instrumento grego), que se formou o compositor de “músicas para cortar os pulsos”, como o descreveu, ligeiramente maldoso, um jornalista.

A busca

De fato, Cohen nunca escondeu a depressão, e sua busca espiritual através do judaísmo e mais tarde do budismo, além do uso de antidepressivos, deixa clara a angústia. Mas o fino senso de humor e o charme modesto e sedutor de certa forma amenizavam a melancolia estampada em seus textos. Conseguia, como poucos, aliar na vida e obra a espiritualidade severa, disciplinada, ao hedonismo sensual, romântico, uma tarefa aparentemente impossível, mas que determinou seu estilo único.

Em Hydra, Leonard ainda escreveu três livros de poesia e dois romances. O primeiro, The Favorite Game (1963), é um relato autobiográfico de seus tempos de estudante em Montreal, onde nasceu, de pais judeus – seu avô era rabino e tinha escrito um volumoso livro de interpretações do Talmude. O segundo, The Beautiful Losers (1966), recebeu elogios da crítica, que o rotulou de “o mais ousado jovem escritor do momento”, por causa do erotismo explícito e nada ortodoxo do livro, além da originalidade formal. O livro se tornou um best-seller no Canadá e nos EUA.

O passo seguinte foi se mudar para Nova York, onde se hospedou no mítico Chelsea Hotel (cenário de uma de suas canções mais famosas, Chelsea Hotel Nº 2, em que descreve um encontro com Janis Joplin, um de seus inúmeros casos na época) e se tornou um observador da ebulição que animava a Factory, de Andy Warhol. E compunha inspirado pela própria vida, a Bíblia e os poemas flamencos de Garcia Lorca, seu grande ídolo.

A consagração

O primeiro disco, Songs of Leonard Cohen (1968), era chamado de “blues europeu”, não chegou a emplacar nos EUA, mas foi bem na parada inglesa e no resto da Europa, fato que iria se repetir, mais ou menos regularmente, com os discos seguintes. Na França, dizia-se até que se uma francesa tivesse um só disco, certamente seria um disco seu.

À essa altura, ele já fazia grandes turnês, em que mergulhava no vinho, nas mulheres e nos entorpecentes (ou estimulantes, de acordo com o caso). Era um período de autodestruição, muita confusão mental e hedonismo. Cohen (que nunca se casou) vivia um relacionamento difícil com Suzanne Elrod, mãe de seus dois filhos, Adam e Lorca.

A virada

Foi então que ele conheceu Roshi, um mestre do budismo zen, que seria um amigo valioso pelo resto da vida e determinaria sua decisão, por volta de 1994, quando estava prestes a fazer 60 anos, de se tornar monge e viver por seis anos no centro budista de Mt. Baldy, em Los Angeles, trabalhando como motorista e cozinheiro. Lá ele foi rebatizado como Jikan, que significa “o silencioso”. A aparente contradição está em perfeita harmonia com sua personalidade, que nunca cedeu às expectativas dos outros e sempre manifestou um gosto pela ambiguidade, ou, em outras palavras, por colocar mais questões do que respondê-las, de forma gentilmente provocativa.

A influência de Roshi se estendeu para sua obra, que deixou um pouco de lado o humor quase sarcástico do álbum de 1974, New Skin for the Old Ceremony, que surpreendeu pela variação de temas, arranjos e ritmos, e os equívocos de Death of a Ladies Man (1977), que trazia Bob Dylan e Allen Ginsberg nos backings de uma canção e Suzanne na capa. Em Recent Songs (1979) e principalmente em Various Positions, gravado depois de um longo período de reavaliação, em 1984, Cohen desaparece para em seu lugar surgir um compositor ainda mais sutil e profundo, com canções de grande “sensualidade espiritual”, como a belíssima Hallelujah, o que levou Dylan a comentar que eram como orações.

O tempo como cozinheiro do mestre e amigo Roshi, em que acordava todos os dias às 3 da manhã para trabalhar e meditar, rendeu um livro de poemas e desenhos, The Book of Longing, e um novo disco depois de nove anos. Ten New Songs (2001), meio soul, meio gospel, foi gravado em sua garagem e escrito em parceria com uma de suas backing vocals, Sharon Robinson. O reflexivo Dear Heather, três anos depois, traz letras mais diretas e uma voz mais rouca e sussurrada. É o efeito dos cigarros e de 70 anos bem vividos. Sobre a idade, aliás, ele disse, com serena sabedoria: “À medida que você envelhece, passa a ter menos interesse pela nova versão da realidade”.

No entanto, uma versão desagradável da realidade bateu-lhe à porta, na forma de um rombo de milhões em sua conta. Sua antiga empresária se aproveitou de sua ausência nos anos de monastério e roubou tudo o que pôde. A solução, benéfica para os fãs, foi partir numa longa turnê. Um dos shows, em Londres, foi gravado e lançado recentemente no Brasil (Live in London). Um álbum duplo, com tudo o que de melhor ele compôs.

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Façamos sexo, não BBB

Acho que vou chover no molhado, mas não custa repetir: em vez de perder tempo com as desventuras sexuais dos personagens casa vez mais ordinários do BBB, por que não ganhar tempo com a própria vida e fazer sexo de verdade? O BBB não vale nem o voyeurismo – na boa, se estiver sozinho (ou mesmo acompanhado) melhor olhar pela janela, ler Sade, Henry Miller, Bataille, D.H.Lawrence, ou alugar um clássico como Atrás da porta verde e Dama do lotação (o mais recente Cidade Baixa também serve).

Há muito o BBB deixou de ser um recorte da vida para ser um retrato da mediocridade da vida. Difícil acreditar que tantas pessoas queiram mesmo ver um bando de gente sem graça enchendo a cara por tédio, vergonha ou contrato pra depois se esfregarem debaixo das cobertas. Estupro? Sim, ao que parece – e acho que, confirmada a impressão, o cara deveria ser não apenas expulso desse kitsch motel coletivo, como eventualmente ser indiciado. O fato é que, com o risco de parecer moralista ou antigo, mas desde já ressaltando que falo do ponto de vista exclusivamente estético e existencial, o programa “em si” é um estupro.

Tudo bem, até dá pra dar umas boas risadas ou extrair alguma lição antropológica – mas para isso bastam cinco minutos. Mais é querer pastar nessa virtual vida bovina. Por tudo isso, sugiro um flash mob mais prazeroso do que o habitual: a cada vez que o BBB entra no ar, façamos sexo de verdade. Pegue sua bela namorada, seu belo namorado, amigas ou amigos dispostos, sua imaginação ou estimulantes criativos, e mandem bala, de preferência com a TV desligada e um Serge Gainsbourg ou Marvin Gaye na vitrola, CD ou iPod.

 

Marilyn Chambers, estrela de Atrás da porta verde


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Os melhores do jazz e da eletrônica

Matthew Shipp

Como prometido, depois dos melhores discos nacionais e estrangeiros, duas microlistas com a seleção de cinco álbuns de jazz, feita por mim, e cinco de eletrônicos, pelo parceiro Gui Werneck:

Jazz:

Matthew Shipp – The Art of the Improviser
Miles Davis Quintet – Live in Europe 1967: The Bootleg Series Vol. 1
Vijay Iyer, Prasanna e Nitin Mitta – Tirtha
Joe Lovano Us Five – Bird Songs
Ambrose Akinmusire – When the Heart Emerges Glistening

Eletrônicos:

Ricardo Villalobos and Max Loderbauer – Re:ECM
James Ferraro – Far Side Virtual
Rustie – Glass Swords
Zomby – Dedication
Kode 9 e Spaceape – Black Sun

Ricardo Villalobos e Max Loderbauer

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Os melhores discos gringos de 2011

PJ Harvey

Se ontem deu pra montar uma lista só entre meus favoritos e os do Guilherme Werneck, na hora de escolher os gringos foi bem diferente. Muita coisa, né?  Só coincidimos na grande PJ Harvey. Então resolvi publicar as listas separadamente (fiz com 11, de novo como um time). O engraçado é que, no fim das contas, gosto muito de quase tudo o que ele escolheu – o Sun Araw, o Kurt Vile e o Black Keys entrariam fácil na minha seleção. E, pelo que ele me disse, a recíproca é verdadeira. Então, fica como se fosse uma listona de 20 melhores:

A do Gui:

Ravedeath 1972 – Tim Hecker
PJ Harvey – Let England Shake
Black Keys – El Camino
Battles – Gloss Drop
White Denim – D
Zola Jesus – Conatus
Kurt Vile – Smoke Ring for my Halo
R.E.M. – Collapse Into Now
Sun Araw – Ancient Romans
Metronomy – The English Riviera

A minha:

PJ Harvey – Let England Shake
tUnE-yArDs – whokill
Frank Ocean – nostalgia, ULTRA
The War on Drugs – Slave Ambient
Bon Iver – Bon Iver
DJ Quik – The Book of David
Tom Waits – Bad as Me
Oneohtrix Point Never – Replica
Tinariwen – Tassili
Beirut – The Rip Tide
Shabazz Palaces – Black Up

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SELEÇÃO MUSICAL BRASILEIRA 2011

Guilherme Werneck (editor-executivo do site da MTV) é meu amigo desde que trabalhamos juntos no site da Trip, há dois anos. Mas é como se nos conhecêssemos há uns 30. Ao menos quando a gente fala de música. Dá pra ficar horas e horas lembrando de bandas e nomes ao som do gelo no uísque e das melhores, mais variadas, familiares e estranhas músicas do planeta.

Outro forte ponto em comum é o gosto pelas listas. Bem, gosto talvez não seja exatamente a palavra; obsessão cairia melhor. Porque é um tal de “putz, esqueci de por fulano ou sicrano na lista!” e “peraí, ainda dá pra mudar?” Foi assim em 2009 e no ano passado, quando, depois de semanas de debates (sempre agradáveis, diga-se), fechamos os 50 melhores discos de cada ano.

As listas, como quaisquer listas, provocaram certa celeuma, tachadas de elitistas, coisa de nerd etc. Nada mais eram do que o retrato de dois gostos pessoais e idiossincráticos e, principalmente, muito diversos, indo de dub a folk, de samba a ambient, de rap a noise, de jazz a rock húngaro, de minimalistas a pop turco, de mangue bit a afrobeat sem nenhuma distinção. A gente literalmente ouve tudo (salvo talvez sertanejo – lembrando que Pena Branca e Xavantinho é música caipira!)

Dessa vez optamos por um perfil mais light, mais acessível, selecionando discos mais universalmente palatáveis e que não são difíceis de encontrar. Especialmente entre os internacionais, já que os nacionais estão ao alcance de quem realmente se dispuser a procurar – quase todos podem, inclusive, ser baixados no site dos artistas (é só clicar nos nomes abaixo), algo que já está virando praxe e mudando muito a cena do mercado musical.

Por uma questão de espaço, resolvi separar nacionais e internacionais em duas listas de onze, como um time. E, de bônus, duas microlistas de cinco, com eletrônicos (selecionados pelo Gui) e jazz (por mim).

Seguem então, os onze canarinhos do nosso escrete musical de 2011. (E amanhã, os gringos!)


1. Criolo – Nó na Orelha
2. Karina Buhr – Longe de Onde
3. Bixiga 70 – Bixiga 70
4. Wado – Samba 808
5. Gal Costa – Recanto
6. Gui Amabis – Memórias Luso/Africanas
7. Passo Torto – Romulo Fróes, Kiko Dinucci, Rodrigo Campos e Marcelo Cabral
8. Lirinha – Lira
9. Junio Barreto – Setembro
10. Emicida, Beatnik e K-Salaam – Doozicabraba e a Revolução Silenciosa
11. Domenico Lancelotti – Cine Privê e Caçapa – elefantes na Rua Nova (empatados)

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10 razões para George ser seu Beatle favorito

Diga-me quem é seu Beatle favorito e direi quem és. George Harrison e Ringo Starr são as escolhas menos óbvias, claro. Ringo era o engraçado, o feioso simpático, o carente, que precisava de uma ajudinha dos amigos. Já com George, a coisa complica.

Se ele não era o músico de talento sinfônico e rosto de querubim, como o Paul, nem o gênio de humor ácido e transgressivo como o John, tinha qualidades que muitas vezes superavam a de seus parceiros – principalmente se considerarmos suas carreiras-solo.

Hoje faz exatos dez anos que George morreu. Para lembrá-lo, separei dez boas razões para ele ser ou se tornar seu Beatle favorito:

1- Era o mais cool, o silencioso, aquele cuja expressão denotava mistério e uma modéstia não isenta de ironia. Para muitas fãs era o mais bonito. E era o Beatle de humor mais fino, britânico. Quando policiais deram uma batida na sua casa, sua reação, extra-cool, foi essa: “Sou um cara organizado: guardo as meias na gaveta de meias e as drogas na gaveta de drogas”.

2- Foi o autor da primeira música gravada pelos Fab Four, um exercício instrumental chamado “Cry for a Shadow”, e  também da última: a sintomática “I me mine”

3- Aprendeu cítara sozinho, na marra (e depois se aprofundou no instrumento com Ravi Shankar). O uso da cítara em Norwegian Wood e Within you, without you foi decisivo para popularizar a cultura oriental no ocidente, assim como sua devoção à filosofia indiana

4- É dele a primeira faixa do melhor disco dos Beatles, “Revolver”. A música é Taxman. Ah, é dele também Here comes the sun, While my guitar gently weeps e Something…

5- Era amigo de grandes comediantes, como Peter Sellers e o pessoal do Monthy Python, de quem foi produtor em A Vida de Brian

6- Foi organizador do primeiro concerto beneficente da história, o Concert for Bangladesh, atitude que depois seria imitada por deus e o mundo (mais o mundo do que deus)

7- Lançou o primeiro álbum triplo de um artista solo, o brilhante All things must pass, logo depois do fim dos Beatles, e provavelmente o único triplo a atingir o primeiro lugar das paradas, tanto nos EUA quanto na Inglaterra

8- Era especialista em jardinagem zen ao mesmo tempo em que frequentava os boxes da Fórmula 1

9- Participou de um dos mais divertidos supergrupos da musica pop, os Travelling Willburys, com Bob Dylan, Tom Petty e o lendário Roy Orbinson

10- Gravou um grande disco já com o câncer que o mataria pouco depois bem avançado, Brainwashed, com a ajuda do filho único Dhani, mostrando serenidade até o fim.

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Ave Marilyn

Marilyn na piscina de "Something's got to give", por Lawrence Schiller

Um livro com textos íntimos, fotos raras em que aparece seminua, revelações biográficas. Não há como errar: toda notícia nova sobre Marilyn Monroe irá despertar a curiosidade de qualquer pessoa, de carolas a junkies, de banqueiros a intelectuais.

Grande parte desse fascínio é mérito da própria atriz; mérito de suas curvas, de sua boca convidativa, de seu jeito de garota perdida na noite, que quer se encontrar nos braços de quem souber confortá-la e fazê-la sorrir, de sua voz, também cheia de curvas, infantil e provocante.

É uma adoração que se estende já por décadas, com direito a imagens sagradas, como os retratos de Warhol e a foto com o vestido esvoaçante, que teima em mostrar sua calcinha. O canto bêbado de parabéns ao presidente Kennedy já virou litania; a cicatriz revelada por Bert Stern tornou-se chaga; logo mais deve surgir algum tipo de santo sudário, quem sabe o lençol que ela usava no dia de sua morte, com resquícios de sua imaculada saliva, de seu imaculado baton…

Que o mundo inteiro é voyeur em alguma medida é óbvio. Mas porque a persistência de alguns mitos e outros não? O que realmente mantém Marylin no altar das fantasias, na cruz dos prazeres? Por que não Greta Garbo ou Rita Hayworth (pra ficar só no star system de Hollywood)?

Santa Marilyn, por Bert Stern

Morrer jovem, bela e em circunstâncias misteriosas “ajuda”, mas não explica tudo. Arrisco dizer que uma das razões está no fato de que ela se confundiu à imagem de seu tempo. Por onde se pense os anos 50 e 60, lá está ela: na política, ao lado dos Kennedy; no esporte, com o primeiro marido, o ídolo do baseball Joe DiMaggio; na literatura, depois que se casou novamente, dessa vez com o dramaturgo Arthur Miller (e mais tarde, por meio das biografias romanceadas por Norman Mailer e Joyce Carol Oates); nas artes plásticas, através de Warhol; na discussão sobre sexualidade e feminismo (Camille Paglia falava sobre o descompasso entre a encarnação do símbolo da liberdade sexual e sua real fragilidade, vulnerabilidade). E ainda há o cinema, a música e as mil teorias conspiratórias em torno da sua história breve e intensa.

Mas a adoração de Marylin tem também algo de conformismo. Mesmo ateus e agnósticos que veneram (“culturalmente”) sua imagem platinada mostram a necessidade de montar um panteão e colocar ali uma deusa. É o impulso atávico de plantar totens do “eterno” que sirvam de referência para marcar nossa transitoriedade, nossa precariedade, nossa impossibilidade de ser mais do que somos.

E em todos os sentidos não há totem (nem tabu) melhor que esse. A imagem de Marilyn tem um frescor de outro mundo. Nas fotos em que aparece seminua, como estas agora reveladas, feitas no set de “Something’s Got to Give”, filme inacabado, sente-se a temperatura de seu corpo, a maciez de sua pele, a consistência de sua carne. E isso porque ela está sempre nos chamando da jaula do inconsciente; tornamo-nos íntimos dela, é como se a víssemos todos os dias no café da manhã, bocejando de baby doll.

Você pode perguntar: e daí? Daí nada. Só me resta dizer, como todo mortal: Ave Marilyn.

 

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George Harrison e o pai de Madonna e Tarantino

Se Elia Kazan foi o pai de Martin Scorsese, o próprio Scorsese é o pai de Madonna e Quentin Tarantino.

A primeira afirmação é fácil de explicar: Scorsese já declarou o quanto foi influenciado por Kazan, diretor dos clássicos “Sindicato de Ladrões”, “Vidas Amargas” e outros. Mais que isso, dirigiu um documentário sobre o mestre, que será exibido na Mostra de São Paulo.

Já a segunda talvez exija a locação de um DVD para entender. Foi o que eu fiz, inadvertidamente, ao ver o filme de estreia de Scorsese, “Quem bate à minha porta”, estrelado pelo amigo Harvey Keitel.

Praticamente um filme de pós-graduação, demorou cerca de quatro anos pra ficar pronto: Scorsese começou a filmar em 1965 e o título só apareceu num luminoso em 69. Isso por conta de grana, falta de tempo, dificuldade de agenda, dúvidas sobre o roteiro etc. Keitel tinha algum emprego burocrático na época e tinha de sec desdobrar para comparecer ao set, onde chegava a dormir, tamanho o empenho.

Valeu o esforço – o resultado é fascinante. Quando surgem os letreiros finais, fica a impressão de que estava muito adiante do seu tempo. Muito do que Tarantino popularizou em “Cães de Aluguel” e “Pulp Fiction” já estava lá, trinta anos antes: o uso criativo de música pop/rock/cool, os planos inusitados, nunca óbvios, a vida marginal e violenta dos personagens, o figurino vintage, as referências cinematográficas explícitas, os diálogos casuais e aparentemente deslocados, quase como sketches independentes do enredo. E por aí vai. Viciado em cinema, Quentin deve ter colocado os fotogramas desse filme numa seringa e tomado uma overdose.

E Scorsese vai ainda mais longe, misturando sexo livre à culpa cristã, imagens de mulheres e homens nus a closes de santos e Jesus na cruz, e tendo ao fundo a “piscanalítica” ‘The End”, dos Doors. A porta do confessionário se funde à porta da mulher desejada; os pés de Cristo confundem-se com as curvas de uma amante na cama; o olhar compungido de uma santa surge em fusão com uma cena de estupro. Keitel beija a imagem do Salvador e um filete de sangue escorre por sua boca. Impossível não pensar naquele famoso clipe da Madonna e seu Jesus negro, ou mesmo na forma como La Cicconne sempre misturou ícones católicos e imagens sexuais.

Relativamente pouco comentado, assim como o incrível “Alice não mo0ra mais aqui”, outro grande filme do começo da carreira de Scorsese, “Quem bate à minha porta” merece o crédito de pioneiro de uma estética que hoje virou quase regra entre moderninhos e descolados. Foda, pra dizer o mínimo.

“Taxi Driver”, no entanto, também um filmaço, continua a fazer barulho. E tem também espaço na Mostra de São Paulo, onde será exibido com cópia restaurada.

Outro Scorsese exibido recentemente no Brasil é “Living in the Material World”, documentário sobre o beatle silencioso, George Harrison. Agora no fim de novembro fará dez anos de sua morte. Escrevi há um tempo um perfil dele para a revista Vida Simples. Ficou bacana, tá aqui.

 

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